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Split payments exigirá readequação das fintechs para lidar com antecipação de recebíveis

Novo sistema também pode impulsionar modelos de embedded finance

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Redação

24 de fevereiro, 2026
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Split payments exigirá readequação das fintechs para lidar com antecipação de recebíveis

Resumo

O modelo de split payments chega à sua fase decisiva de regulamentação e promete transformar o mercado de pagamentos.

Fintechs devem se adaptar a uma nova lógica de antecipação de recebíveis, alterando suas operações financeiras.

Importante saber:

  • Banco Central publicará diretrizes até abril para regulamentação.

  • Imposto será retido no momento da transação, alterando cálculos.

  • Fintechs precisam rever modelos de risco e análises tributárias.

Considerado por especialistas como um desafio operacional ainda mais complexo do que a implementação do Pix, o modelo de split payments vinculado à Reforma Tributária entra em sua fase decisiva de regulamentação. As alterações técnicas que afetarão os arranjos de pagamento devem ser publicadas até abril pelo Banco Central, ao mesmo tempo em que são aguardadas as definições gerais do novo sistema.

O tema foi debatido no workshop “Split Payments Tributário – Conceitos e Impactos ao Mercado de Pagamentos”, coordenado pela presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Fin), Cristiane Coelho. Em entrevista exclusiva ao FintechLab, a executiva detalhou os impactos esperados para as fintechs e destacou que a antecipação de recebíveis pode ser o primeiro grande campo de transformação.

Antecipação de recebíveis sob nova lógica

Segundo Cristiane, a principal mudança está na forma como o mercado calcula os recebíveis. Hoje, as operações costumam considerar o valor bruto das vendas. Com o split payment, o imposto será automaticamente retido no momento da transação, alterando a base de cálculo.

“O dinheiro que ficará em posse das empresas nas transações não poderá mais ser calculado como sendo o bruto. Ele é o líquido, porque o imposto vai ficar com o governo. Uma operação de recebível calculada pelo bruto será um cálculo errado”, afirmou.

Na prática, fintechs que operam antecipação precisarão rever modelos de risco, precificação e análise de fluxo de caixa. Se antes era possível antecipar valores sem considerar detalhadamente o montante de tributos a recolher, agora será indispensável integrar a variável tributária à engenharia financeira.

A executiva alerta que pode haver descasamento de liquidez caso a empresa antecipe recebíveis sem observar a nova dinâmica fiscal. Por outro lado, abre-se espaço para estruturas mais sofisticadas: companhias com créditos tributários acumulados poderão apresentar potencial de antecipação superior ao valor líquido simples, desde que o sistema seja capaz de identificar e compensar esses créditos.

“Não é simplesmente o bruto ou o líquido. Existe muita margem no meio disso que a fintech pode aprender a explorar. Quem entender melhor a tributação de determinado sistema vai sair na frente”, disse.

Embedded finance e novas oportunidades

Além do impacto direto nas operações de crédito, o split payment também pode impulsionar modelos de embedded finance. Empresas que precisarem se adaptar à nova sistemática poderão buscar parceiros financeiros capazes de oferecer conciliação mais eficiente, integração com nota fiscal e serviços acoplados ao pagamento do tributo.

Para Cristiane, o split pode se tornar uma porta de entrada para novas ofertas, embora o desafio técnico de implementação já seja, por si só, significativo. “É o sistema financeiro estando perto daquilo que ele sabe fazer — o meio de pagamento — e entrando nas transações para tornar mais fácil inclusive o recolhimento de tributos”, afirmou.

Ela ressalta que não haverá necessariamente mais dinheiro circulando no mercado, mas sim uma readequação de lógicas e de atores. “Os atores são diferentes, as lógicas são diferentes. Vai caber às fintechs explorar esse mato alto.”

Regulamentação e cronograma

Até o final de abril, o Banco Central deve publicar as DRNs (Diretrizes de Regulamentação Normativa) com alterações específicas para cada arranjo de pagamento. Na prática, instituições emissoras de boleto, por exemplo, precisarão adaptar seus sistemas para incluir campos obrigatórios relacionados ao IBS e à CBS nas notas fiscais vinculadas às transações.

A adequação será mandatória. Assim como ocorreu com o Pix, o não cumprimento das normas poderá impedir a instituição de operar determinado arranjo.

O cronograma prevê implementação faseada. O projeto-piloto deve começar pela TEF em fevereiro de 2027, seguido por TED entre março e abril do mesmo ano. Ambas entrarão para o público geral até o fim do primeiro semestre. Na sequência, boleto e Pix via QR Code passam por entrada controlada a partir de junho. A expectativa é que todos os arranjos estejam plenamente operacionais até outubro de 2027.

Pioneirismo e integração fiscal

Cristiane classifica o modelo como revolucionário por integrar, de forma direta, pagamento e nota fiscal — elemento central para o controle de créditos tributários. “Saber exatamente qual pagamento está ligado a qual nota fiscal é o coração do split.”

Para a executiva, o Brasil assume posição pioneira ao estruturar um sistema que une meios de pagamento e arrecadação tributária em tempo real. Ela atribui a confiança no sucesso do projeto à participação ampla do mercado nas discussões, envolvendo governo, Receita Federal, Banco Central, entidades setoriais e associações de fintechs.

“Estudamos bastante, com reuniões frequentes e participação pulverizada do mercado. Governo e sistema financeiro trabalharam de forma harmônica, entendendo limites e escopo. Vai dar certo”, concluiu.

Se confirmado o cronograma, o split payment deve marcar uma das mais profundas transformações na infraestrutura financeira brasileira desde a criação do Pix — com impacto direto na estrutura de crédito, na gestão tributária e na forma como empresas e fintechs enxergam liquidez no país.