O ecossistema de fintechs no Brasil enfrenta incertezas após o STF considerar o enquadramento trabalhista de profissionais do setor.
Quanto mais essa tese avança, maior o risco de operações se tornarem inviáveis por conta de custos elevados.
Importante saber:
Possível aumento dos custos trabalhistas pode dobrar.
Novas exigências regulatórias elevam barreiras de entrada.
A ascensão da inteligência artificial muda o mercado de trabalho.
O ecossistema de fintechs no Brasil enfrenta um novo capítulo de incertezas que pode impactar diretamente sua sustentabilidade. A possibilidade de o Supremo Tribunal Federal (STF) analisar o enquadramento trabalhista de profissionais do setor acendeu um alerta entre executivos e especialistas, que já lidam com um cenário de custos crescentes, demissões recentes e a ameaça trazidas pela automação via inteligência artificial.
Desde que veio à tona a discussão sobre o possível enquadramento de funcionários de fintechs como financiários — ou até mesmo equiparados a bancários — o tema passou a ser visto como um potencial divisor de águas para o segmento. O receio é que, caso a tese prospere, os custos trabalhistas possam até dobrar, inviabilizando operações baseadas em margens reduzidas.
A preocupação ganhou força após decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST), no âmbito do Tema 177, que admitiu a possibilidade de enquadramento de trabalhadores de empresas de crédito como financiários, mesmo fora de instituições bancárias tradicionais.
Para a consultora Sandra Vieira, especialista em embedded finance, o risco é sistêmico. “Se o trabalhador de fintech for equiparado ao bancário, o custo trabalhista pode dobrar. Isso muda completamente a lógica de operação dessas empresas, que dependem de estruturas enxutas para sobreviver”, afirma.
Segundo ela, o setor já opera sob forte pressão regulatória e de compliance, o que exige investimentos elevados em tecnologia e governança. “Estamos diante de uma tempestade perfeita. As fintechs estão sendo pressionadas por todos os lados”, diz.
Demissões reforçam momento de ajuste
Esse cenário já começa a se refletir no mercado de trabalho. A Stone, uma das principais empresas de tecnologia financeira do país, realizou recentemente demissões que chamaram a atenção do mercado. Embora a companhia não esteja isolada, o movimento é visto como um sinal de ajuste estrutural diante da necessidade de ganho de eficiência e controle de custos.
Nos bastidores, especialistas apontam que o ciclo de crescimento acelerado — marcado por expansão de equipes e forte investimento em inovação — dá lugar agora a uma fase mais cautelosa, com foco em rentabilidade.
Regulação eleva custos e cria barreiras
Além da questão trabalhista, novas exigências regulatórias também têm pesado no caixa das empresas. Com a entrada em vigor das resoluções CMN nº 5.274/2025 e BCB nº 538/2025, o setor passou a enfrentar uma régua mais rígida em segurança digital.
De acordo com Luiz Rossi, head de serviços da Selbetti, fintechs em expansão e empresas altamente dependentes de terceiros tendem a sofrer mais. “A adaptação exige revisão de arquitetura, contratação de especialistas escassos e investimentos relevantes em curto prazo. Isso acontece em um cenário de falta de profissionais qualificados em cibersegurança”, explica.
O impacto financeiro pode ser significativo. Sandra Vieira relata um caso em que o custo estimado para obtenção de licença regulatória saltou de R$ 5 milhões para R$ 25 milhões após novas exigências. Esse tipo de aumento, segundo ela, tem incentivado a chamada “indústria de venda de licenças”, na qual empresas optam por adquirir instituições já autorizadas em vez de iniciar o processo do zero.
Inteligência artificial entra no radar dos empregos
Como se não bastassem os desafios regulatórios e trabalhistas, a ascensão da inteligência artificial adiciona uma nova camada de incerteza ao setor. Ferramentas baseadas em IA já começam a substituir funções operacionais em áreas como atendimento, análise de crédito e prevenção a fraudes.
O movimento, embora aumente a eficiência, levanta preocupações sobre o futuro do emprego nas fintechs. Analistas avaliam que a tendência é de redução de equipes em funções repetitivas, ao mesmo tempo em que cresce a demanda por profissionais altamente qualificados em tecnologia, dados e segurança.
Na prática, isso pode intensificar o movimento de reestruturação já observado no setor, com menos vagas operacionais e maior exigência de especialização.
Risco ao ecossistema
Para especialistas, a combinação entre pressão regulatória, risco trabalhista, aumento de custos e transformação tecnológica pode comprometer a dinâmica que impulsionou o crescimento das fintechs nos últimos anos.
“A questão trabalhista pode ser apenas a ponta do iceberg. O que vemos é o fechamento de um ciclo que coloca em risco a sustentação de um ecossistema que foi extremamente inovador e relevante para a economia”, conclui Sandra Vieira.