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Enquadramento trabalhista e demissões por IA pressionam fintechs e elevam risco ao modelo

Se o trabalhador de fintech for equiparado ao bancário o custo operacional pode dobrar

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Redação

23 de março, 2026
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Enquadramento trabalhista e demissões por IA pressionam fintechs e elevam risco ao modelo

Resumo

O ecossistema de fintechs no Brasil enfrenta incertezas após o STF considerar o enquadramento trabalhista de profissionais do setor.

Quanto mais essa tese avança, maior o risco de operações se tornarem inviáveis por conta de custos elevados.

Importante saber:

  • Possível aumento dos custos trabalhistas pode dobrar.

  • Novas exigências regulatórias elevam barreiras de entrada.

  • A ascensão da inteligência artificial muda o mercado de trabalho.

O ecossistema de fintechs no Brasil enfrenta um novo capítulo de incertezas que pode impactar diretamente sua sustentabilidade. A possibilidade de o Supremo Tribunal Federal (STF) analisar o enquadramento trabalhista de profissionais do setor acendeu um alerta entre executivos e especialistas, que já lidam com um cenário de custos crescentes, demissões recentes e a ameaça trazidas pela automação via inteligência artificial.

Desde que veio à tona a discussão sobre o possível enquadramento de funcionários de fintechs como financiários — ou até mesmo equiparados a bancários — o tema passou a ser visto como um potencial divisor de águas para o segmento. O receio é que, caso a tese prospere, os custos trabalhistas possam até dobrar, inviabilizando operações baseadas em margens reduzidas.

A preocupação ganhou força após decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST), no âmbito do Tema 177, que admitiu a possibilidade de enquadramento de trabalhadores de empresas de crédito como financiários, mesmo fora de instituições bancárias tradicionais.

Para a consultora Sandra Vieira, especialista em embedded finance, o risco é sistêmico. “Se o trabalhador de fintech for equiparado ao bancário, o custo trabalhista pode dobrar. Isso muda completamente a lógica de operação dessas empresas, que dependem de estruturas enxutas para sobreviver”, afirma.

Segundo ela, o setor já opera sob forte pressão regulatória e de compliance, o que exige investimentos elevados em tecnologia e governança. “Estamos diante de uma tempestade perfeita. As fintechs estão sendo pressionadas por todos os lados”, diz.

Demissões reforçam momento de ajuste

Esse cenário já começa a se refletir no mercado de trabalho. A Stone, uma das principais empresas de tecnologia financeira do país, realizou recentemente demissões que chamaram a atenção do mercado. Embora a companhia não esteja isolada, o movimento é visto como um sinal de ajuste estrutural diante da necessidade de ganho de eficiência e controle de custos.

Nos bastidores, especialistas apontam que o ciclo de crescimento acelerado — marcado por expansão de equipes e forte investimento em inovação — dá lugar agora a uma fase mais cautelosa, com foco em rentabilidade.

Regulação eleva custos e cria barreiras

Além da questão trabalhista, novas exigências regulatórias também têm pesado no caixa das empresas. Com a entrada em vigor das resoluções CMN nº 5.274/2025 e BCB nº 538/2025, o setor passou a enfrentar uma régua mais rígida em segurança digital.

De acordo com Luiz Rossi, head de serviços da Selbetti, fintechs em expansão e empresas altamente dependentes de terceiros tendem a sofrer mais. “A adaptação exige revisão de arquitetura, contratação de especialistas escassos e investimentos relevantes em curto prazo. Isso acontece em um cenário de falta de profissionais qualificados em cibersegurança”, explica.

O impacto financeiro pode ser significativo. Sandra Vieira relata um caso em que o custo estimado para obtenção de licença regulatória saltou de R$ 5 milhões para R$ 25 milhões após novas exigências. Esse tipo de aumento, segundo ela, tem incentivado a chamada “indústria de venda de licenças”, na qual empresas optam por adquirir instituições já autorizadas em vez de iniciar o processo do zero.

Inteligência artificial entra no radar dos empregos

Como se não bastassem os desafios regulatórios e trabalhistas, a ascensão da inteligência artificial adiciona uma nova camada de incerteza ao setor. Ferramentas baseadas em IA já começam a substituir funções operacionais em áreas como atendimento, análise de crédito e prevenção a fraudes.

O movimento, embora aumente a eficiência, levanta preocupações sobre o futuro do emprego nas fintechs. Analistas avaliam que a tendência é de redução de equipes em funções repetitivas, ao mesmo tempo em que cresce a demanda por profissionais altamente qualificados em tecnologia, dados e segurança.

Na prática, isso pode intensificar o movimento de reestruturação já observado no setor, com menos vagas operacionais e maior exigência de especialização.

Risco ao ecossistema

Para especialistas, a combinação entre pressão regulatória, risco trabalhista, aumento de custos e transformação tecnológica pode comprometer a dinâmica que impulsionou o crescimento das fintechs nos últimos anos.

“A questão trabalhista pode ser apenas a ponta do iceberg. O que vemos é o fechamento de um ciclo que coloca em risco a sustentação de um ecossistema que foi extremamente inovador e relevante para a economia”, conclui Sandra Vieira.