O ecossistema de fintechs no Brasil vivencia um período crítico, com cerca de 1.700 empresas encerrando operações. Entender as causas pode ajudar a ajustar estratégias no setor.
Analistas destacam a importância de governança e compliance para a sobrevivência das fintechs em um mercado altamente competitivo.
Importante saber:
8.258 startups chegaram ao fim entre 2015 e 2024.
As fintechs representam cerca de 20% desse total.
Conformidade regulatória é crucial para a sobrevivência no setor.
O crescimento do ecossistema de fintechs transformou o sistema financeiro brasileiro na última década e colocou o país entre os mercados mais dinâmicos do mundo em inovação financeira. Naturalmente, a atenção de analistas e investidores costuma se concentrar nas histórias de sucesso que ganharam escala e protagonismo no setor.
Mas, paralelamente a esse movimento, muitas iniciativas ficaram pelo caminho e entender por que tantas empresas não conseguem se sustentar no mercado pode ajudar empreendedores e investidores a evitar erros e ajustar estratégias em um setor marcado por forte competição e exigências regulatórias.
Um levantamento da consultoria Distrito, citado pelo portal InfoMoney, ajuda a dimensionar esse fenômeno. O estudo aponta que 8.258 startups brasileiras deixaram de existir entre janeiro de 2015 e setembro de 2024. Considerando que cerca de 20% dessas empresas eram fintechs, é possível estimar que entre 1.500 e 1.700 fintechs encerraram suas atividades no Brasil nesse período.
O cenário não é exclusivo do país. Um estudo do Hare Strategy Group indica que quase três quartos das fintechs fracassam nos primeiros três anos de operação, evidenciando o grau de risco associado ao setor.
Inovação sem estrutura
Para Felipe Franchi, CEO e fundador da fintech Franchi, o fenômeno é comum em segmentos que atravessam ciclos intensos de inovação.
“Nos primeiros ciclos de inovação, muitas empresas nascem com boas ideias, mas sem uma estrutura sólida de governança, compliance e gestão de risco. O mercado financeiro, por natureza, exige disciplina regulatória e sustentabilidade de longo prazo. Sem isso, o crescimento se torna frágil”, afirma.
Entre os fatores mais frequentemente associados às dificuldades enfrentadas por fintechs, Franchi cita modelos de crédito mal calibrados, dependência excessiva de funding externo, falhas de compliance e promessas de rentabilidade ou facilidade operacional incompatíveis com a realidade do setor financeiro.
Mercado entra em fase de consolidação
Para Fabrício Winter, sócio da consultoria Fábrica de Fintechs, o setor vive um processo natural de amadurecimento após anos de expansão acelerada.
“Esse é um segmento que cresceu rapidamente e agora passa por uma fase de consolidação, na qual muitos players que ganharam base de clientes sem rentabilizá-la adequadamente encontram dificuldades para se sustentar. Em vários casos, a escala necessária simplesmente não foi atingida”, afirma.
Segundo ele, o cenário macroeconômico também pesa. “Quando o crédito se deteriora e o custo de funding sobe, como ocorre atualmente, poucos players conseguem resistir. Soma-se a isso o fato de que muita gente acreditou que dava para brincar de fintech”, diz.
Winter também destaca o impacto de modelos de negócio baseados em soluções prontas de embedded finance. Segundo ele, muitos empreendedores acreditaram que bastaria investir em marketing e estruturar a operação em plataformas “as a service” para alcançar crescimento rápido.
“Alguns apostaram que, tendo apenas a casca, um bom investimento em marketing e montando toda a operação no famoso ‘as a service’, o crescimento e o aprendizado necessários viriam com o tempo. Mas quem conhece a dinâmica real da fintechs sabe que não existe mágica. É um negócio de escala e retorno de médio prazo, entre três e cinco anos”, afirma.
O peso da regulação
A questão regulatória também aparece como um dos principais fatores de sobrevivência no setor. O estudo do Hare Strategy Group, intitulado “Superando a Lacuna de Conformidade: Estratégias Críticas para o Sucesso das Fintechs em 2025”, identificou dados relevantes:
fintechs que se prepararam para exigências regulatórias ainda na fase pré-seed aumentaram em 64% suas chances de sobrevivência;
startups com especialistas em regulação entre os fundadores captaram recursos 2,8 vezes mais rápido do que aquelas sem esse perfil.
Confiança como diferencial competitivo
Para Franchi, a tendência é que o setor continue passando por um processo de consolidação nos próximos anos.
“O futuro das fintechs não está apenas em tecnologia, mas em confiança. A inovação continua sendo fundamental, mas precisa caminhar junto com responsabilidade regulatória, gestão de risco e visão de longo prazo”, afirma.
Diante desse cenário, Winter deixa um alerta para empreendedores que pretendem entrar — ou permanecer — no mercado.
“No novo mundo das fintechs, sem governança sólida, capital, proposta de valor clara e público-alvo bem definido, muitas iniciativas acabam servindo apenas para fazer powerpoint bonito”, conclui.