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Pagamentos

O anunciado “futuro dos pagamentos” pode já estar atrasado e defasado

Onde a captura de valor permanece ancorada na taxa transacional, a inovação tende a ser incremental

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Redação

27 de fevereiro, 2026
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O anunciado “futuro dos pagamentos” pode já estar atrasado e defasado

Resumo

O futuro dos pagamentos está em debate, com enfoque nas mudanças estruturais e na eficiência dos sistemas.

Enquanto novas tecnologias emergem, a captura de valor através de taxas transacionais merece revisão urgente.

Importante saber:

  • Modelos de pagamento interoperáveis desafiam a lógica de taxas transacionais.

  • O Brasil e a Índia lideram em inovações de pagamento com baixo custo para usuários.

  • A discussão sobre o futuro dos pagamentos passa pela estrutura econômica que os suporta.

(*) Por Rafael Durer

O debate global sobre o futuro dos pagamentos tem sido marcado por análises sofisticadas. Relatórios recentes destacam o avanço de stablecoins como meio de liquidação, a emergência do chamado agentic commerce — compras conduzidas por agentes de inteligência artificial —, a personalização crescente no checkout e o desafio contínuo da fraude digital.

Sob o ponto de vista tecnológico, trata-se de projeções consistentes. Contudo, há um elemento estrutural que merece maior atenção: grande parte dessas análises parte de sistemas organizados segundo o modelo de quatro partes (Four-Party Model), predominante nas redes de cartões, no qual emissores, adquirentes e bandeiras são remunerados por meio de taxas transacionais — como interchange, MDR e fees de rede — embutidas no fluxo de pagamento.

Nesse arranjo, a lógica econômica está diretamente associada ao volume e ao valor das transações processadas. A rentabilidade do sistema depende do pedágio transacional. Consequentemente, a agenda de inovação tende a concentrar-se na eficiência dentro dessa arquitetura: redução de fricção, melhoria de conversão, mitigação de fraude e preservação de margens.

O que raramente se questiona é se a própria arquitetura que sustenta o sistema deveria ser objeto de revisão.

A arquitetura determina onde o valor é capturado

Sistemas baseados em taxas transacionais tendem a produzir inovação incremental. Já modelos estruturados sobre infraestrutura interoperável de baixo custo marginal deslocam o eixo competitivo: o pagamento deixa de ser produto e passa a operar como infraestrutura.

Essa distinção não é meramente conceitual. Ela já se materializa em diferentes regiões do mundo.

No Brasil, o Pix superou 150 milhões de usuários, com mais de 40 bilhões de transações anuais e aproximadamente R$ 17 trilhões movimentados. Mais relevante do que os números absolutos é o desenho institucional: um trilho público, interoperável e com custo estrutural reduzido.

Ao mitigar a dependência de pedágios transacionais, o sistema brasileiro desloca o foco da captura de valor. Em vez de concentrar o debate na preservação de MDR, abre-se espaço para estruturar margens por meio de crédito integrado ao fluxo de pagamento — como nas iniciativas de Pix parcelado, Pix garantido e integração com Open Finance. O pagamento passa a ser fonte de dados para underwriting e construção de ecossistemas financeiros.

A Índia seguiu trajetória semelhante com o UPI, que processa mais de 12 bilhões de transações mensais, superando 100 bilhões por ano, com custo próximo de zero para o usuário final. Quando o pedágio deixa de ser o principal vetor de remuneração, o valor econômico migra para a inteligência sobre o fluxo financeiro e para a oferta de serviços adjacentes.

Na China, pagamentos digitais já representam mais de 80% das transações urbanas de varejo. Plataformas como Alipay e WeChat Pay processam dezenas de trilhões de dólares por ano e atendem mais de 1 bilhão de usuários ativos. O diferencial, entretanto, não se resume à escala, mas à integração sistêmica: pagamento, crédito ao consumo, investimentos e seguros operam de forma unificada dentro de ecossistemas digitais. O pagamento é apenas uma camada de um ciclo financeiro mais amplo.

Esses exemplos sugerem que o debate sobre o futuro dos pagamentos não pode ser dissociado da estrutura econômica que sustenta cada sistema. Pontos de partida distintos produzem trajetórias distintas. Onde a captura de valor permanece ancorada na taxa transacional, a inovação tende a ser incremental. Onde o pagamento assume caráter de infraestrutura, abre-se espaço para transformações estruturais.

Para o varejo, essa distinção é estratégica. A negociação de MDR é relevante e pode gerar ganhos táticos de margem. Contudo, a vantagem competitiva de longo prazo tende a residir na capacidade de utilizar dados transacionais para estruturar crédito, fidelização e serviços financeiros integrados. Pagamento gera informação; informação gera decisão de crédito; crédito gera margem recorrente.

Ao discutir o “futuro dos pagamentos”, portanto, a questão central não é apenas tecnológica. É arquitetônica. Trata-se de compreender se estamos analisando uma transformação estrutural dos sistemas ou apenas a sofisticação de um modelo historicamente organizado em torno da captura de valor via pedágio transacional.

A resposta a essa pergunta pode determinar não apenas a evolução dos meios de pagamento, mas o desenho competitivo do varejo e do setor financeiro na próxima década.

(*) Rafael Durer é Founder e Consultor da RD Inteligência em Serviços Financeiros