O debate sobre a transformação digital no mercado de seguros agora foca na interação entre Embedded Insurance e Open Insurance. Esses modelos são essenciais para moldar a experiência do consumidor e a transparência nas ofertas.
A integração bem-sucedida pode revolucionar a distribuição de seguros e impactar as seguradoras e corretores de forma significativa.
Importante saber:
Embedded Insurance torna o seguro parte de uma compra, oferecendo conveniência.
Open Insurance permite a portabilidade de dados e promove a transparência.
Ambos modelos devem coexistir para beneficiar consumidores e o mercado.
(*) Manuel Matos
O debate sobre a transformação digital do mercado de seguros tem sido marcado, entre outras coisas, pela polêmica em torno do Embedded Insurance e do Open Insurance serem partes de uma mesma infraestrutura ou representarem forças que apontam em direções opostas.
No Embedded Insurance ocorre a incorporação de produtos de seguro ao fluxo de compra de outros bens e serviços. Neste caso o seguro deixa de ser uma decisão autônoma do consumidor e passa a ser um componente embutido na jornada digital. No momento da aquisição de uma passagem aérea, por exemplo, ou de um eletrodoméstico, de um serviço de mobilidade ou de uma transação financeira o seguro aparece como funcionalidade, não como produto.
A lógica econômica estabelecida aqui é a da conveniência e da redução de atrito. O consumidor não precisa sair da plataforma, não precisa comparar, não precisa negociar. A decisão de compra acontece num contexto em que o seguro já está pré-selecionado, formatado e integrado à experiência do usuário. A distribuição, nesse modelo, é um evento invisível e quem controla a visibilidade controla a relação com o cliente.
Já o Open Insurance é um modelo que constitui uma infraestrutura regulatória e tecnológica de natureza distinta. Sua premissa é a portabilidade de dados do consumidor, baseada em consentimento explícito e em padrões de interoperabilidade entre os participantes do mercado. O objetivo declarado é ampliar a concorrência, promover a transparência e devolver ao titular dos dados a capacidade de decidir com informação.
A diferença fundamental não está apenas na forma de distribuição. Está na natureza da inovação. O Embedded Insurance é uma inovação de distribuição: altera o momento, o canal e o contexto da oferta. O Open Insurance é uma inovação de infraestrutura de dados: altera as condições de acesso, fluxo e governança da informação. O primeiro muda onde o seguro é vendido. O segundo muda as condições sob as quais qualquer venda ocorre.
Essa distinção é essencial. Quem trata os dois modelos como variantes de uma mesma tendência de digitalização perde a tensão estrutural que os atravessa. Um opera na camada da experiência; o outro, na camada da governança. E as implicações de cada um para a distribuição de poder no mercado são radicalmente diferentes.
Embedded Insurance e Open Insurance não são, a rigor, modelos antagônicos. São camadas diferentes de uma mesma transformação. O primeiro opera na camada da experiência — o momento, o canal, a conveniência. O segundo opera na camada da governança — o dado, o consentimento, a interoperabilidade. Quando operam isoladamente, produzem efeitos opostos sobre o mercado: o embedded concentra; o open descentraliza. Quando operam de forma integrada, a complementaridade se torna possível.
A questão central, portanto, não é qual dos dois modelos prevalecerá, mas sob que condições eles podem operar de forma articulada. A resposta passa por três elementos: regulação que exija transparência da oferta embutida, infraestrutura de dados que funcione efetivamente e intermediários capacitados a operar entre as duas camadas.
Para as seguradoras, a implicação é que a decisão não é entre embedded ou open, mas sobre a capacidade de operar nos dois ambientes. A seguradora que se limita a fornecer capacidade para plataformas torna-se commodity. A que desenvolve capacidade analítica para operar em ambientes de dados abertos mantém diferenciação.
Para os corretores, a mensagem é igualmente direta. O modelo embedded reduz o espaço da intermediação transacional — e isso não vai mudar. Mas o modelo open amplia o espaço da intermediação consultiva — a curadoria de riscos, a gestão de consentimentos, a interpretação de dados. O corretor-arquiteto de risco é o profissional que opera nessa zona de convergência: entende a conveniência do embedded, mas garante a inteligência do open.
Para os reguladores, o desafio é evitar que a conveniência da distribuição embutida se converta em captura da interface. O Open Insurance é o instrumento que equilibra essa equação. Sem ele, o seguro embutido opera sem contrapeso. Com ele, a distribuição integrada coexiste com a liberdade de escolha.
Em síntese: o Embedded Insurance responde à pergunta onde e quando o seguro é distribuído. O Open Insurance responde à pergunta sob que condições. Um sem o outro produz distorção — ou concentração sem transparência, ou transparência sem escala. A arquitetura que melhor serve ao consumidor, ao mercado e à função social do seguro é a que articula as duas camadas. Construir essa articulação é o desafio da próxima década.
(*) Manuel Matos é Estrategista-chefe da Carta Reservada de Seguros